{"id":790,"date":"2024-10-25T14:38:19","date_gmt":"2024-10-25T17:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lers.pro.br\/?p=790"},"modified":"2025-03-15T11:06:22","modified_gmt":"2025-03-15T14:06:22","slug":"o-que-e-necropolitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lers.pro.br\/?p=790","title":{"rendered":"O que \u00e9 necropol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-justify\">A necropol\u00edtica, termo cunhado pelo fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe em seu ensaio &#8220;Necropolitics&#8221; (2003), descreve a pol\u00edtica de poder de uma forma espec\u00edfica: o poder de decidir quem vive e quem morre. Essa teoria parte de uma cr\u00edtica \u00e0s formas de controle social que utilizam o abandono, a opress\u00e3o e a viol\u00eancia como mecanismos para manter uma determinada estrutura de poder, especialmente sobre popula\u00e7\u00f5es marginalizadas. Mbembe desenvolve o conceito a partir das ideias de Michel Foucault sobre biopoder \u2014 o controle dos corpos e da vida \u2014, mas amplia esse conceito para abordar o que ele identifica como uma forma de &#8220;governar pela morte&#8221;.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">Ao inv\u00e9s de garantir prote\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a ou bem-estar, a necropol\u00edtica revela um modelo de governo que, em algumas situa\u00e7\u00f5es, explora o potencial de destrui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia para definir quem ser\u00e1 &#8220;sacrific\u00e1vel&#8221;. Isso pode ocorrer de v\u00e1rias maneiras: por meio de pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica que direcionam a repress\u00e3o contra grupos sociais espec\u00edficos, pela precariza\u00e7\u00e3o de direitos b\u00e1sicos (como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o) em comunidades espec\u00edficas, ou ainda por interven\u00e7\u00f5es militares em territ\u00f3rios considerados &#8220;perigosos&#8221;. O resultado \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de zonas em que a morte, a inseguran\u00e7a e o abandono s\u00e3o caracter\u00edsticas constantes.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">Na pr\u00e1tica, a necropol\u00edtica atua em uma l\u00f3gica de segrega\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o. Ela cria &#8220;territ\u00f3rios de morte&#8221; onde a vida \u00e9 desvalorizada e o Estado muitas vezes n\u00e3o interv\u00e9m a favor da prote\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, mas sim para suprimir, regular e eliminar. Comunidades perif\u00e9ricas, favelas e popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas s\u00e3o exemplos de grupos que, no Brasil e em v\u00e1rias outras partes do mundo, convivem com os efeitos de uma pol\u00edtica que permite, por meio de omiss\u00f5es e a\u00e7\u00f5es violentas, que esses indiv\u00edduos sejam expostos a altos riscos de mortalidade.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">Esse conceito se relaciona diretamente com o racismo estrutural, pois muitas dessas pol\u00edticas de exclus\u00e3o e viol\u00eancia s\u00e3o direcionadas a pessoas racializadas. Achille Mbembe observa que, ao longo da hist\u00f3ria, popula\u00e7\u00f5es negras, ind\u00edgenas e pobres t\u00eam sido as principais afetadas por essa din\u00e2mica de poder. Durante a coloniza\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio transatl\u00e2ntico de escravos, por exemplo, a morte e o sofrimento eram pr\u00e1ticas sistematicamente direcionadas a popula\u00e7\u00f5es negras. Hoje, apesar do fim oficial de pr\u00e1ticas coloniais, a necropol\u00edtica revela a persist\u00eancia de uma estrutura que ainda considera essas vidas como menos dignas de prote\u00e7\u00e3o.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">No Brasil, um exemplo claro do exerc\u00edcio da necropol\u00edtica pode ser visto na atua\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica em comunidades marginalizadas. Opera\u00e7\u00f5es policiais realizadas em favelas e periferias muitas vezes resultam em um alto n\u00famero de mortes, sendo que, em muitos casos, essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o justificadas como parte de uma &#8220;guerra contra o crime&#8221;. No entanto, essa justificativa mascara a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas para resolver problemas sociais e evidencia o desprezo por essas vidas. A pol\u00edtica de combate ao tr\u00e1fico de drogas, por exemplo, transforma moradores de comunidades em &#8220;danos colaterais&#8221;, evidenciando o pouco valor atribu\u00eddo a essas vidas pelo poder p\u00fablico.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">Al\u00e9m disso, a necropol\u00edtica tamb\u00e9m se manifesta em pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica, ou na falta delas, que exp\u00f5em determinadas popula\u00e7\u00f5es a maiores riscos de morte. Em contextos de pandemia, como o da COVID-19, a distribui\u00e7\u00e3o desigual de vacinas e cuidados m\u00e9dicos deixou claro como determinados grupos sociais podem ser mais facilmente sacrificados em fun\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e do acesso desigual aos recursos.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">A necropol\u00edtica, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia direta, mas tamb\u00e9m um sistema de neglig\u00eancia e abandono. Ao decidir onde e como os recursos s\u00e3o aplicados, o Estado define implicitamente quem \u00e9 digno de viver e quem pode ser deixado \u00e0 pr\u00f3pria sorte. A precariedade dos servi\u00e7os de saneamento b\u00e1sico, a aus\u00eancia de hospitais em locais remotos e a falta de pol\u00edticas de habita\u00e7\u00e3o para popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o exemplos de necropol\u00edtica, pois indicam um planejamento que permite que certas popula\u00e7\u00f5es fiquem \u00e0 margem da sobreviv\u00eancia digna.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">Al\u00e9m da viol\u00eancia e do abandono, a necropol\u00edtica tamb\u00e9m utiliza o medo como forma de controle. Popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, ao verem a morte e o sofrimento como elementos presentes em seu cotidiano, tendem a viver em um estado constante de vigil\u00e2ncia e medo. Esse sentimento \u00e9 uma ferramenta poderosa para manter o controle, pois desmobiliza e enfraquece a possibilidade de resist\u00eancia e luta por direitos. O medo de retalia\u00e7\u00f5es, de repress\u00e3o policial e de perdas pessoais pode ser o suficiente para fazer com que essas popula\u00e7\u00f5es aceitem sua condi\u00e7\u00e3o sem questionamentos, o que \u00e9 vantajoso para os detentores do poder.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">No cen\u00e1rio internacional, a necropol\u00edtica pode ser observada em conflitos armados, onde pa\u00edses que possuem maior poder militar decidem invadir, bombardear ou intervir em outras na\u00e7\u00f5es sob justificativas diversas, como &#8220;combate ao terrorismo&#8221; ou &#8220;prote\u00e7\u00e3o de direitos humanos&#8221;. No entanto, essas interven\u00e7\u00f5es frequentemente resultam em grandes perdas de vidas civis, muitas vezes de forma desproporcional, o que demonstra como a morte pode ser instrumentalizada para atender a interesses de domina\u00e7\u00e3o e controle geopol\u00edtico.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">A reflex\u00e3o sobre a necropol\u00edtica traz \u00e0 tona a necessidade de questionar quem s\u00e3o as vozes silenciadas e as vidas negligenciadas pelas estruturas de poder. Em um contexto de desigualdades profundas, entender a necropol\u00edtica \u00e9 fundamental para reconhecer que, muitas vezes, o Estado e as institui\u00e7\u00f5es que deveriam proteger e promover o bem-estar de todos os cidad\u00e3os est\u00e3o, de fato, garantindo esse direito apenas para alguns. O conceito se revela, portanto, como uma ferramenta para desmascarar pr\u00e1ticas de exclus\u00e3o que perpetuam a injusti\u00e7a social e racial, transformando determinados grupos em &#8220;sacrific\u00e1veis&#8221;.<\/p><p class=\"has-text-align-justify\">Para superar essa realidade, \u00e9 necess\u00e1rio repensar pol\u00edticas p\u00fablicas que promovam, de fato, a inclus\u00e3o e o acesso igualit\u00e1rio a direitos fundamentais. A necropol\u00edtica desafia a sociedade a reconhecer que, enquanto algumas vidas forem vistas como descart\u00e1veis, a justi\u00e7a e a democracia ser\u00e3o apenas ideais incompletos. Ela nos for\u00e7a a encarar o problema da desigualdade n\u00e3o apenas como uma quest\u00e3o econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m como uma quest\u00e3o de vida e morte, demandando a reconstru\u00e7\u00e3o de uma sociedade onde todos tenham a mesma dignidade e valor.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A necropol\u00edtica, termo cunhado pelo fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe em seu ensaio &#8220;Necropolitics&#8221; (2003), descreve a pol\u00edtica de poder de uma forma espec\u00edfica: o poder de decidir quem vive e quem morre. 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