Heitor Nóbrega Martins
É simples de entender. O carnaval acabou. “Ela desatinou. Viu chegar quarta-feira, acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando. E ela ainda está sambando”. Assim diz a canção do mestre Chico…
Triste colombina moderna. Cabelos pretos, lisos, presos; óculos escuros, bolsa a tiracolo. Expressão cansada, beleza cansada. Vestido escuro, lutuoso, nada garrido. Morreu-lhe o carnaval. Foi-se o banquete de ilusões. Há que se voltar, inexoravelmente, ao feijão-com-arroz da realidade; há que se voltar ao “todo dia”…
Ele: cabelos escuros, espetados, escondidos por um chapéu bambo de bobo da corte. Agarrado à garrafa, caminha pesado. Torso nu. Short escuro. Pós-moderno Pierrô musculoso, descomposto mal-educado, que deixa a moça para trás. Dor de cabeça; ressaca. Acabou-se a efêmera e arrebatadora folia. Na rua, lixo. No lixo, um gato. Nas vidas, a volta à rotina.
A realidade é crua. Quarta-feira chegou. Os bolsos estão vazios. Os corações voltam a suas solidões. O mestre continua: “Ela desatinou. Viu morrer alegrias, rasgar fantasias. Os dias sem sol raiando”…

Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Buarque, é um cantor, compositor, violonista, dramaturgo, escritor e ator brasileiro. É considerado por muitos críticos o maior artista vivo da música brasileira. “Ela Desatinou”, de Chico Buarque, lançada em 1969, fala de um amor de Carnaval, uma relação intensa e fugaz, que se torna um “desatino”, uma loucura que não pode durar, contrastando com a vida real.


