1. Introdução

Escrever, na Idade Média, não era apenas um ato intelectual — era um ato político. Para as mulheres, erguer a pena significava transgredir fronteiras impostas pela Igreja, pelo direito costumeiro e pela tradição filosófica que as situava como seres de menor racionalidade. E, no entanto, elas escreveram. Compuseram visões místicas e tratados morais, poemas de amor e autobiografias espirituais, obras filosóficas e narrativas de viagem interior. Fizeram isso muitas vezes à sombra de conventos, sob a tutela de confessores, servindo-se de estratégias discursivas que camuflavam a ousadia em humildade.

Este texto se propõe a examinar o contexto em que essas autorias femininas se desenvolveram, os obstáculos que enfrentaram, as formas assumidas pela produção intelectual de mulheres medievais e as figuras mais representativas dessa tradição. Em seguida, traçamos um paralelo com a personagem Laura, da novela brasileira Lado a Lado (TV Globo, 2012–2013), vivida por Marjorie Estiano, que no século XX enfrenta restrições análogas. Por fim, analisamos o movimento Querelle des Femmes como desdobramento e resposta a esse longo silenciamento.

Fundamental destacar que o presente estudo é fruto da mesclagem dos escritos das autoras acima, estudantes da Escola de Ensino Médio Governador Adauto Bezerra, Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil, a quem agradecemos pela grande contribuição prestada.

2. O contexto geral da Idade Média

A Idade Média, convencionalmente situada entre os séculos V e XV, foi um período de profunda complexidade social, religiosa e intelectual. Longe da imagem monolítica de trevas e estagnação que o senso comum lhe atribuiu, esse milênio abrigou o florescimento das universidades, a difusão do Direito Romano, a construção das grandes catedrais góticas e o desenvolvimento de filosofias teológicas sofisticadas como a escolástica. Contudo, essa efervescência se dava em um quadro estrutural marcado pela hierarquia estamental, pela centralidade da Igreja Católica como instituidora de verdades e pela exclusão sistemática das mulheres dos espaços formais de saber.

A visão teológica dominante, herdeira de Aristóteles e de certas leituras de Paulo de Tarso, apresentava a mulher como ser derivado — nascida do flanco de Adão, responsável pela queda original e sujeita à autoridade masculina. Essa construção legitimava a exclusão das mulheres das universidades, das ordens de pregação e dos cargos eclesiásticos com poder de magistério. O saber era, em princípio, território do clero masculino.

As mulheres de família nobre podiam receber educação doméstica; as religiosas tinham acesso à leitura e, eventualmente, à escrita no interior dos mosteiros. Mas o campo era estreito e vigiado. Qualquer voz feminina que se pretendesse autorizada precisava negociar constantemente com os guardiões do discurso legítimo — os confessores, os abades, os padres da Igreja.

3. Problemas enfrentados pelas autoras

As mulheres que ousaram escrever na Idade Média defrontaram-se com obstáculos de ordem material, institucional e simbólica. No plano material, o acesso à escrita era limitado: os materiais de escrita (pergaminho, tinta, penas) eram caros, e o domínio das técnicas de cópia exigia treinamento disponível sobretudo em ambientes monásticos. Fora do convento, as oportunidades eram ainda mais restritas.

No plano institucional, as mulheres eram excluídas das universidades medievais, que começaram a se organizar a partir do século XII. Não podiam frequentar as disputationes acadêmicas nem obter os títulos que conferiam autoridade intelectual reconhecida. A produção de textos filosóficos, jurídicos ou teológicos era, portanto, exercício sem respaldo formal — o que tornava qualquer obra feminina passível de descrédito ou suspeição.

O problema simbólico era talvez o mais profundo: a própria fala feminina era deslegitimada de antemão. Por isso, muitas escritoras medievais recorreram a estratégias retóricas de autodepreciação — apresentando-se como instrumentos passivos de Deus, negando qualquer mérito pessoal ao texto, invocando a supervisão de confessores ou superiores. Era uma forma de publicar sem parecer publicar, de falar sem parecer falar.

Havia ainda o perigo de acusações de heresia. Mulheres que relatavam visões ou revelações divinas pisavam terreno perigoso: poderiam ser celebradas como místicas ou condenadas como bruxas, dependendo das relações de poder em jogo e do conteúdo de suas visões. Algumas, como Margery Kempe, foram interrogadas repetidas vezes pelas autoridades eclesiásticas.

4. A produção feminina na Idade Média

Apesar das restrições, a produção intelectual feminina medieval foi surpreendentemente diversa. Ela se manifestou principalmente em quatro formas: a literatura mística e visionária, a poesia lírica, a filosofia moral e a hagiografia.

A literatura mística foi o território de maior liberdade relativa para as mulheres, porque a autoridade da experiência direta de Deus podia, em tese, superar a falta de autoridade institucional. Visionárias como Hildegard von Bingen, Gertrude de Helfta, Mechthild de Magdeburgo e Beatrice de Nazaré produziram textos de extraordinária riqueza teológica e literária, descrevendo itinerários espirituais, iluminações e diálogos com o divino.

A poesia lírica encontrou expressão notável nas trobairitz provençais — mulheres que participaram da tradição da fin’amor no sul da França entre os séculos XII e XIII. Figuras como a Condessa de Dia e Castelloza compuseram cansos (canções de amor) que se dialogavam com e respondiam à produção masculina dos trovadores, por vezes invertendo as posições de sujeito e objeto do desejo.

Na filosofia moral e na prosa didática, Christine de Pizan representa o ápice: é a primeira mulher conhecida do Ocidente medieval a viver profissionalmente da escrita, produzindo obras de história, poesia, debate e teoria política. Por fim, a hagiografia — a escrita de vidas de santos — foi outro campo em que mulheres atuaram como copistas, tradutoras e, ocasionalmente, autoras.

5. Mulheres copistas

Antes de serem autoras, muitas mulheres medievais foram copistas — e essa atividade merece atenção especial. Nos scriptoria dos mosteiros femininos, freiras copiavam manuscritos bíblicos, litúrgicos e patrísticos, contribuindo de forma decisiva para a preservação do saber antigo e medieval. Mosteiros como o de Wessobrunn, na Baviera, ou o de Santa Radegunda, na Gália Franca, contaram com comunidades inteiras de mulheres dedicadas ao trabalho do livro.

Essa atividade não era meramente mecânica. As copistas selecionavam textos, faziam escolhas sobre layouts, produziam iluminuras e, em certos casos, acrescentavam glosas e comentários marginais que revelam leitura atenta e julgamento intelectual autônomo. Algumas assinaram seu trabalho — o que era excepcional mesmo para copistas masculinos — deixando rastros de identidade em uma tradição que tendia ao anonimato.

O scriptorium era também, paradoxalmente, um espaço de agência: ao copiar textos teológicos complexos, as freiras adquiriam competências interpretativas que podiam ser mobilizadas na própria escrita. A copista e a autora não eram, portanto, figuras separadas, mas frequentemente a mesma pessoa em momentos diferentes de uma trajetória intelectual.

Com a chegada da imprensa no século XV e a gradual secularização da produção escrita, as mulheres copistas perderiam progressivamente espaço nesse campo — mais um exemplo de como, historicamente, o progresso técnico beneficiou de forma desigual homens e mulheres.

6. Perfis de autoras medievais

Hildegard von Bingen foi abadessa beneditina, compositora, naturalista, médica, poetisa e profetisa — um dos espíritos mais completos do século XII. Nascida na Renânia, entrou para a vida religiosa ainda criança e, aos quarenta anos, após décadas de silêncio estratégico, declarou receber instruções divinas para registrar suas visões. O resultado foi o Scivias (Conhece os Caminhos), obra visionária em três volumes que combina teologia, cosmologia e ética, acompanhada de iluminuras que a própria Hildegard supervisionou.

Sua legitimidade foi reconhecida pelo papa Eugênio III após análise por uma comissão que incluía Bernardo de Claraval — o que conferiu a ela uma autoridade pública raramente concedida a mulheres. A partir daí, manteve correspondência com imperadores, papas e abades, pregou publicamente em tournées pelo Reno (atividade interdita às mulheres comuns) e produziu obras científicas como o Physica e o Causae et Curae, que sistematizavam o conhecimento medicinal de sua época.

Sua música — cerca de 77 cantos litúrgicos reunidos na Symphonia — é ainda hoje executada e gravada. Hildegard é, por tudo isso, um caso excepcional: uma mulher medieval que alcançou reconhecimento público em vida, ainda que ao custo de enquadrar permanentemente sua voz na autoridade divina.

Sobre Marie de France sabemos muito pouco: seu nome, a língua que utilizava (o anglo-normando) e a época aproximada (segunda metade do século XII). Especula-se que tenha vivido na corte inglesa, possivelmente como religiosa ou como dama da nobreza. O que ela nos deixou, porém, é de enorme importância literária: doze Lais (narrativas poéticas breves), uma coleção de Fábulas e o poema Espurgatoire Seint Patriz.

Os Lais de Marie de France são obras-primas da literatura cortesã medieval. Inspirados em tradições célticas e bretonas, narram histórias de amor, traição, transformação e desejo com uma sofisticação psicológica e uma sensibilidade às experiências femininas que os distinguem da produção contemporânea masculina. Em Lanval, por exemplo, a figura do cavaleiro injustiçado coloca em xeque valores cortesãos convencionais; em Laustic, a morte de um rouxinol torna-se metáfora de um amor impossível sufocado pela vigilância social.

Marie de France é considerada a primeira poetisa de língua francesa da qual textos se preservaram. Sua obra revela uma intelectual plenamente consciente de seu lugar na tradição literária — no prólogo dos Lais, ela discute explicitamente a teoria da interpretação textual —, ao mesmo tempo que navega com habilidade as expectativas de gênero de seu tempo.

6.3 Christine de Pizan (1364–c.1430)

Christine de Pizan é, de muitas maneiras, a figura central de qualquer discussão sobre autoria feminina medieval. Nascida em Veneza e criada em Paris na corte de Carlos V, ficou viúva aos vinte e cinco anos com três filhos e sem rendas. Em vez de se recolher a um convento ou a uma segunda tutela masculina, fez algo sem precedente: tornou-se escritora profissional, vendendo suas obras a mecenas da alta nobreza francesa e borgonhesa.

Christine de Pizan.

Sua produção é espantosamente vasta: poesia lírica, alegoria, biografia, história, filosofia política e teoria literária. O Livro da Cidade das Damas (1405) é sua obra mais conhecida e mais analisada. Respondendo diretamente ao Roman de la Rose de Jean de Meun — texto misógino de enorme circulação —, Christine constrói alegoricamente uma cidade habitada por mulheres ilustres da história e da mitologia, provando que a virtude e o intelecto não têm sexo. O texto é tanto uma antologia de exempla femininos quanto um manifesto contra a calúnia sistemática das mulheres na literatura.

O Livro das Três Virtudes (1405), complementar ao anterior, oferece um guia prático para mulheres de diferentes condições sociais. Em obras como o Caminho da Longa Aprendizagem e o Ditié de Jehanne d’Arc — este último o único poema contemporâneo sobre Joana d’Arc escrito por alguém que a conheceu em vida —, Christine demonstra uma capacidade rara de integrar reflexão filosófica e engajamento político imediato. É, inequivocamente, a mais importante escritora da Idade Média ocidental.

6.4 Julian de Norwich

Julian de Norwich é a primeira mulher a escrever um livro em língua inglesa. Sua obra, As Revelações do Amor Divino (Revelations of Divine Love), existe em duas versões: uma curta, provavelmente escrita logo após a experiência visionária de 1373, e uma longa, redigida décadas depois após longa meditação teológica. A diferença entre as duas versões revela uma pensadora que amadureceu progressivamente, desafiando inclusive algumas correntes teológicas de seu tempo.

Julian era uma anacoreta — mulher religiosa reclusa numa cela contígua à Igreja de São Julião em Norwich, daí o nome pelo qual é conhecida, pois o seu nome real permanece desconhecido. Durante uma grave doença, teve dezesseis visões ou mostrações (showings) da Paixão de Cristo, e passou o restante da vida interpretando-as teologicamente.

O aspecto mais radical de sua teologia é a imagem materna de Deus: Julian descreve Cristo como mãe que alimenta, cuida e acolhe os pecadores. Essa representação, incomum na teologia medieval dominante, é elaborada com rigor e coerência surpreendentes. Sua frase mais famosa — all shall be well, and all shall be well, and all manner of thing shall be well — condensa uma teologia do amor que recusa qualquer visão punitiva ou aterrorizante do divino. Julian é hoje reconhecida como uma das maiores teólogas do mundo ocidental.

Fique sabendo

As estudantes fizeram o trabalho de forma individual atendendo à solicitação da professora Ana Paula Parente. A mescla dos textos foi feita por uma equipe à parte.

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